A Internet: Uma terra para ser Fundada mais que um Oceano para ser Surfado e
Um Novo "Lugar" para a Reforma Escolar através do Desenvolvimento Comunitário

     Muitos vêem a "Aldeia Global" eletrônica como um chavão estereotipado de tecno-românticos que promovem a tecnologia como uma moderna solução para todos os problemas, a fonte de progresso linear em direção a um mundo melhor. Os céticos vêem as comunidades eletrônicas como um "descaminho" e, talvez, como um perigoso escape dos problemas do mundo "real". Computadores, dizem, só podem levar a mais alienação. No entanto, permanece a possibilidade de que o "mapa" da Internet nos abra diferentes espaços comuns que nos desafiem a reexaminar o modo como nos relacionamos uns com os outros.

      Neste artigo, quero trazer a conversa metafórica sobre a Internet para o "front" e convidar a todos a pensar sobre o ciberespaço como um lugar físico, como um terreno desabitado onde poderão ser fundadas e construídas aldeias de diferentes tipos. Penso que a Internet deva ser pensada mais como um lugar do que como uma "highway", uma "rodovia", mais como um espaço onde podemos criar novos delineamentos sociais, como uma comunidade, uma construção social entre pessoas que partilham metas, valores e práticas comuns.

Quais são as concepções mais comuns que se tem da Internet?

      Neste momento, suspeito  que a maioria das pessoas vê a Internet como uma rica fonte de recursos a serem buscados. As pessoas vêem exploradores da Era da Informação, caçadores e mineradores, retornando do ciberespaço com "bits" de informação e entendem a Internet como uma rica mina ou um vasta região para ser explorada.  Estas histórias de riqueza criam um senso de urgência: sem conexões com a Internet, você perderá a Corrida do Ouro do século 21 e os exploradores, que retornam da Internet, trazem consigo diferentes visões do que é possível nesta nova fronteira. A maioria fala dos valiosos recursos disponíveis gratuitamente.

      Conceituar a Internet como um espaço físico, no qual podemos construir, é muito diferente de pensar nela como uma rede de recursos, ou uma super autopista de informação ou ondas a serem surfadas.
      A Internet é um lugar sem fronteiras físicas. Um lugar onde pessoas podem ir para encontrar pessoas com interesses similares, para construir novos assentamentos, para partilhar conhecimentos através de ensino-aprendizagem e formar comunidades em torno de práticas comuns.
      A Era Digital está transformando a natureza de nossas ferramentas de comunicação. O computador, a televisão, o telefone, a impressora, o fax, os satélites, brevemente, serão integrados e transformados em serviços altamente competitivos oferecidos por telefone, cabo, satélite, e redes de informática. Porém, a integração conceitual, não suficientemente discutida, é o que interessa. Diferentes formas de interações via computador - conversas online, jogos, simulações computadorizadas, realidade virtual - estão ligadas com ferramentas de comunicação tais como e-mail, textos, tele-conferências, hipermídia, em contextos globais. Esta integração torna possível a comunicação multi-pessoal sincrônica e assincrônica combinada com colaboração. Diferenciação de papéis, questões de poder, controle e status são aspectos que fazem parte nestas trocas.
      Enquanto alguns vêem os computadores como tele-democracias, que incrementam a participação de todos, esquecem que esta caracterização ingênua ignora o acesso à tecnologia, a construção de competências intelectuais para usar a tecnologia e o delineamento social do ambiente online. 
      A tese central deste artigo é que a integração traz novas formas de interação, muito diferentes de ler um texto, ver um vídeo ou falar para um grupo. É uma envolvente construção social. É esta combinação de realidade projetada + comunicação que torna possível criar um espaço partilhado com potencial para diferentes formas de trocas sociais.  Esta integração terá profundos efeitos em todos os aspectos de nossas vidas, da expressão artística às práticas institucionais, de nosso trabalho a nosso lazer. 
      Na Internet, estudantes podem interagir com: museus, passear pela Casa Branca, olhar através de um telescópio, dissecar um sapo, ou visitar cidades através do mundo. Os alunos de todo o mundo podem acompanhar uma equipe de pesquisadores viajando pela Antártica. O uso integrado de relatos, ambiente online e atividades escolares auxiliam os estudantes a experienciarem os preparativos diários e o trabalho que é parte integrante de uma aventura científica. Em uma demonstração acerca das possibilidades da Internet, estudantes, sentados em sua sala de aula no Havaí, foram capazes de dirigir um robot submarino que transmitia imagens ao vivo pela televisão e examinar o fundo do oceano. Tudo isto através dos computadores da sua escola. Porém, nem todos os espaços virtuais são extensões do mundo real. A Terra Sagrada dos nativos americanos não existe mais na realidade, mas pode ser reconstruída num contexto virtual. Os descendentes destes nativos podem aprender sobre os valores que foram centrais para seu povo. Podem participar de cerimônias tribais que os conectam através do tempo e espaço com seu passado e estabelecer novas ligações para um futuro coletivo. Esta seria uma construção social que tem valor para uma nação. Já existem americanos nativos trabalhando neste tipo de projeto. Existem também mundos virtuais que combinam ciência com ficção como o Micromuse do MIT. Podemos criar novos "lugares", mas devemos ter claro que as comunidades online enfrentam as mesmas questões que existem em todas as organizações sociais: questões como liberdade de expressão X censura, segurança e controle, espaço público e privado, inclusão e exclusão. É necessária uma intensa e contínua negociação social para encontrarmos o equilíbrio exato entre a liberdade individual e o controle coletivo. É necessária uma profunda compreensão das possibilidades sociais, uma reflexão sobre como temos resolvido e lidado com nossos problemas até agora, entender e construir novas convenções que atendam a um mundo novo.  Algumas pessoas acharão que isto é necessário para pesar os custos e os benefícios dos diferentes sistemas sociais, para encontrar um modo de criar comunidades na fronteira eletrônica. Ser parte do processo define a cidadania e está, potencialmente,  aberto para aprendizes de todas as idades.
       As dimensões físicas de uma paisagem oferecem distintas possibilidades e estabelecem limites para a interação humana, mas não constituem uma aldeia ou uma comunidade. Construir uma comunidade é uma atividade humana, social. Aldeias são entidades sociais e não físicas. Assim, se queremos envolver toda a aldeia na educação de nossos filhos, precisaremos de muito mais do que a Terra da Internet - o espaço físico. Necessitaremos de conexões e construções sociais que formem esta aldeia. Formar aldeias é uma engenharia social, não é uma engenharia técnica.

Para criar Aldeias Globais...

      Criar um "espaço" na Internet não significa afluência a este espaço. Esta verdade muitas vezes é descoberta tardiamente por aqueles que pensam que "levar" pessoas a frequentarem um espaço eletrônico comum vai resultar em intensas e gratificantes trocas. Se você envolve as pessoas na construção de seus próprios espaços existe uma chance maior de permanência, mas ainda assim depende da estrutura do grupo. Mesmo a construção coletiva não é suficiente para criar um vínculo comunitário. Um exemplo pode esclarecer este ponto. Como universitária eu fiz parte de um grupo que requeria da administração da Universidade um espaço para os encontros estudantis. Nos foi dado um prédio que necessitava de vários reparos. Gastamos meses redesenhando o espaço, pintando, consertando, gastando, muitas vezes, nossos próprios recursos. Quando terminamos o trabalho, tínhamos nosso próprio espaço físico, mas não tínhamos no grupo propósitos além de ter um local para encontros estudantis e apenas um vago desejo de construir uma comunidade. O grupo se dissolveu pouco tempo depois de termos concluído o trabalho. 
      Construir espaços físicos não deveria ser confundido com construir uma comunidade. Uma lista de discussão, uma tele-conferência ou uma Homepage, por si só, não definem uma comunidade, mesmo que tenham sido desenvolvidas por um grupo de pessoas trabalhando em conjunto, é apenas uma nova dimensão do espaço físico. São as interações e as parcerias entre as pessoas, que ocorrem neste espaço, que definem a comunidade. Estas interações serão então percebidas como "reais" do mesmo modo que são reais nossas ligações telefônicas. Estas experiências não substituem os contatos face a face do mesmo modo que as ligações telefônicas não substituem os encontros. Elas fornecem outra forma de troca social que aumenta o relacionamento e tem conseqüências reais.
      Como vimos, criar comunidades virtuais implica em ligar pessoas que partilham idéias, atividades ou tarefas. Porém é, também, mais que isto. Envolve a busca de idéias diferentes, novas estratégias ou práticas que podem auxiliar os membros a (re)pensar seu modo de fazer as coisas. A construção de comunidades bem sucedidas reúne pessoas que partilham interesses, mas os abordam de diferentes perspectivas ou com experiências diversas. Comunidades vibrantes convivem com unidade de propósitos, balanceados com uma rica diversidade de experiências. Isto seguidamente exige comunicação com outros grupos com diferentes registros lingüísticos, com outros padrões culturais e valores regionais diversos. Saber respeitar e aprender com as diferenças é uma das mais importantes lições da vida.

Que tamanho deve ter uma comunidade virtual?

      O tamanho de uma comunidade virtual está estreitamente ligado à tarefa a que esta se propõe. Certas tarefas podem ser melhor realizadas por pequenos grupos e outras atividades podem requer organizações de larga escala. O desenvolvimento de uma comunidade requer, muitas vezes,  grupos pequenos que fazem parte de uma organização maior. O mesmo se dá no trabalho em rede, as vezes é mais adequado criar centenas de grupos de 10 do que um grupo com centenas de participantes.  As oportunidades e as obrigações de participar são muito diferentes em um grupo pequeno: todos os participantes podem ter um papel ativo na troca de informações, idéias e planos. Pequenos grupos podem ser formados tendo suas próprias metas e tarefas, mas fazendo parte de um grupo maior ( nacional ou internacional) que trabalha em outros locais fazendo, ambos,  parte de uma comunidade comum que partilha metas e valores.

      O tamanho e a estrutura de uma comunidade virtual são críticos para o sucesso a longo prazo. Sem um planejamento cuidadoso, o crescimento da comunidade pode levar a sua fragmentação.

Entre uma estrutura definida e a criatividade dos participantes

      Em uma comunidade virtual, existem momentos em que as tendências e propósitos centrais do grupo precisam ser relembradas a todos e existem momentos e lugares em que os participantes precisam ser parte do processo de evolução da comunidade. O ideal seria alcançar um equilíbrio perfeito entre uma estrutura de trabalho claramente definida com a oportunidade de participação e interações que servem para metas diversas dos participantes. Um exemplo seria a Cruz Vermelha: é uma organização internacional, com tarefas e estrutura claramente definida que abriga diversos grupos, com tarefas e metas próprias em espaços diferentes.

Reflexões e Avaliações do Trabalho

      Avaliar o trabalho e o conhecimento construído  é uma das tarefas mais importantes de uma comunidade virtual. As idéias e os produtos devem ser traduzidos em um formato que permita ser partilhado de modo que pessoas fora da comunidade também tenham acesso a ele e possam determinar seu valor. Toda atividade educacional deveria ser seguida por um período de reflexão. O que aprendemos? O que pensamos sobre o que aprendemos? O que os outros pensam sobre o que aprendemos?

      Publicar nossas reflexões pode ser interessante: isto implica em ter leitores, ter redatores. Colocar os resultados de um trabalho na Web pode ser entusiasmante, porém não é o mesmo que publicá-lo. Escrever e publicar implica na existência de relações entre escritores e leitores.

Trazendo a aldeia para a Sala de Aula; levando os estudantes para a Aldeia

      Nós mandamos nossas crianças para a escola para dar-lhes a oportunidade de se moverem para além das fronteiras da família e dos amigos, para abrir-lhes um rol maior de possibilidades. Entretanto, a escola de nossa sociedade, por sua natureza, é fechada. Ela isola tanto o estudante quanto os professores de muitas experiências que poderiam auxiliá-los a entender o passado, desenvolver competências para construir o futuro e para prepará-los para sua cidadania.

      A melhor maneira de fazer a reforma escolar seria diminuir a lacuna entre o que é ensinado na escola e o que é preciso para viver em sociedade. Isto é muito mais do que uma escola profissionalizante, significa preparar os estudantes para relações de trabalho participativo.
      Em nossa sociedade atual, nenhum professor sabe o suficiente para poder fechar a porta de sua sala de aula. Um diploma ou uma graduação deveriam ser um convite para entrar na comunidade de aprendizes, não um certificado de conhecimentos adquiridos. A aprendizagem continuada deve começar com os professores. As estratégias de desenvolvimento profissional do passado, tiravam os professores da sala de aula, "preenchia-os" com "novo" conhecimento e habilidades e mandava-os de volta para a sala de aula com "detalhadas receitas" de como "preencher" seus alunos. O modelo atual segue o mesmo processo, com uma única excessão, a mensagem é não isolar os estudantes da sociedade e não pensar que podemos "preenchê-los" passivamente com conhecimento. Os métodos de desenvolvimento profissional devem mudar. 
      A Aprendizagem Continuada necessita modelos de desenvolvimento profissional diferente. Professores necessitam ser membros ativos e contribuintes da Comunidade de Aprendizes, como parte de seu dia a dia escolar dentro de sua sala de aula. É o uso da tecnologia para criar comunidades de aprendizagem, a intervenção humana, e não a tecnologia em si mesma, que poderá reformar a educação. O ato de aprender se dá entre pessoas. Necessitamos dissolver e reconstruir a sala de aula em um mundo conectado.
      O envolvimento ativo dos estudantes em nossas comunidades virtuais tem muitos benefícios positivos e alguns negativos. Estudantes ativamente envolvidos em parcerias, nas comunidades virtuais, entendem que o conhecimento é uma construção social, compreendem de modo mais profundo como a informação é transformada em conhecimento. Entenderão melhor que nossas instituições sociais, políticas e econômicas estão sob nossa construção e não além de nós. 
      A presença virtual torna possível sua participação em ambientes de trabalho insalubres ou perigosos, sem correr riscos. Existem, no entanto, alguns riscos intelectuais e sociais ao levarmos nossos alunos para fora da sala de aula. Os alunos deverão aprender diversas normas de segurança pessoal. Coletivamente, nós deveremos nos responsabilizar pela proteção das crianças ao lhes abrir um acesso maior ao mundo adulto. 
      Alunos e professores necessitam aprender de diferentes mentores. Mas o inverso também é verdadeiro. Os membros de uma comunidade precisam refletir sobre que valores, competências e conhecimentos  necessitam para ser parte de uma nova geração. Se a educação pública envolvesse toda a aldeia, seríamos pessoas diferentes. Não culparíamos os professores ou a escola por falharem na solução dos problemas da sociedade. Nós, coletivamente,  nos responsabilizaríamos pelo que acontece nas escolas. Escolas seriam um reflexo do que nós somos como pessoas. Todos nós seríamos parte de um diálogo nacional ou internacional, com os alunos e seus professores,  sobre o que valorizamos.

      O que estamos coletivamente fazendo para preparar a próxima geração para seu papel na sociedade? O mundo eletrônico oferece um novo terreno, um espaço para colaboração, cooperação, mas criar uma comunidade internacional é tarefa para pessoas.

Versão feita por Iris Elisabeth Tempel Costa , com a autorização da autora.