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Um novo perfil para o professor na era digital Entrevista de Andrea Ramal a Renato Deccache
Daqui a uns 50 anos, alguns dos recursos usados hoje em sala de aula e
considerados modernos provavelmente estarão obsoletos. Novos utensílios
serão desenvolvidos, alguns até, quem sabe, revolucionários.
No entanto,
na opinião da doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e diretora executiva da empresa Instructional Design, de assessoria pedagógica, Andrea Cecilia Ramal, não serão ferramentas de última geração que marcarão a aula do futuro. Para ela, os novos rumos da educação estão mais relacionados à postura de professores e alunos em sala de aula. "Imagino a sala de aula do futuro como um lugar comunicativo, sendo o espaço da polifonia, da diversidade das vozes, onde todos poderão se comunicar, se posicionar, e onde, desse diálogo, vai se produzir conhecimento", prevê a doutora, que também é assessora pedagógica do Centro Pedagógico Pedro Arrupe, ligado à Companhia dos Jesuítas. Andrea Ramal faz parte de um pequeno grupo de educadores, os desenhistas instrucionais, profissionais com a atribuição de desenvolver estratégias de aprendizado por intermédio de meios digitais. Nesta entrevista, ela explica porque a internet representa um novo paradigma para a educação, ensina como usar pedagogicamente o computador, analisa a educação a distância no país e defende um novo perfil de professor: "Ele será um dinamizador da inteligência coletiva, já que essa pessoa irá formar comunidades que aprendem cooperativamente", afirma Andrea Ramal. Folha Dirigida - Por que a senhora afirma que a internet representa um novo paradigma para a educação?
Andrea Ramal - Eu venho realizando uma pesquisa há dez anos sobre
esse tema, que tenta verificar como mudou a mentalidade humana a partir
do uso do hipertexto. Então, minha teoria é de que, escrevendo
linearmente, as pessoas desenvolvem um determinado tipo de estrutura mental.
E por navegar em hipertexto, elas estão, hoje em dia, desenvolvendo
um outro tipo de estrutura mental capaz de fazer links, relacionar
conhecimentos, de promover a própria autoria, porque, quando um
indivíduo navega, ele é o autor de seu próprio percurso.
Além disso, essa pessoa, ao mesmo tempo, desenvolve maior capacidade
de comunicação com outros porque ela acaba fazendo parte
de um grande autor coletivo, que é esse universo de pessoas que
estão cadastrando conhecimento, conteúdo e informação
na internet. E o que isso gera? Uma série de relações
com o conhecimento que a escola, até hoje, não conseguiu
produzir. Por que? Porque a escola ainda é linear. Ela é
estruturada em cima de um currículo que se forma como degraus. Tenho
que estudar um conteúdo para, só depois, estudar um outro;
tenho que reunir todas as crianças por idade e não por interesses
ou projeto de pesquisa; tenho de dar a elas textos em que elas não
podem
ser autoras mas em que elas têm que descobrir o que o autor quis dizer. Então, a internet, por trazer esse elemento digital e intertextual, que torna o conhecimento fluido, móvel, dinâmico, ela provoca a escola tradicional. Por isso, digo que a escola não será mais a mesma depois da relação das pessoas com o conhecimento através de meios digitais. Folha Dirigida - A senhora considera que ainda vai demorar muito para a escola incorporar, em sua plenitude, todas estas mudanças?
Andrea Ramal - Por tradição, a escola é lenta para
mudar. E isso não é um aspecto negativo, no meu modo de ver.
Isto indica que na escola existem profissionais reflexivos, que não
mudam por modismos. Eles têm de ter muita segurança para mudar.
Mas, nesse momento específico, acho que a mudança será
mais rápida porque não existe como optar por ela. Nós
já estamos na cibercultura. Não se trata de uma escola escolher
se quer ou não ter um currículo hipertextual ou em rede.
Ela terá este currículo porque o aluno já vai participar
disso no mundo exterior à escola.
Folha Dirigida - Nesse contexto, como será a aula do futuro?
Andrea Ramal - A aula do futuro, a meu ver, será formada por grupos,
reunidos por interesses em temas específicos e não por faixas
etárias, exclusivamente; equipes multidisciplinares trabalhando
juntas nos colégios e não divididas em áreas como
Português, Matemática, Geografia, História. Serão
equipes de trabalho, formadas por professores e alunos, desenvolvendo projetos
juntos. A avaliação não será a mesma para todos
e não vai ser determinada por uma única pessoa. Isto porque
existirão tantos currículos quantas forem as navegações
dos alunos. Como o indivíduo navegante é o próprio
autor, haverá um currículo por aluno. No fundo, existirão
avaliações diversificadas, por competências e não
por conteúdos; em síntese: uma mudança radical, onde
não vai mais existir o conceito de turma mas sim de comunidade cooperativa
de aprendizagem.
Folha Dirigida - Quando se fala em uso de novas tecnologias no ensino, logo se pensa em dotar as salas de aulas de computadores. Mas qual a diferença entre ter máquinas como estas em sala e usá-las pedagogicamente no processo de ensino?
Andrea Ramal - Este é um ponto crucial. Para atender a uma exigência
de mercado, diretores compram os equipamentos e criam uma aula de
informática, que, em geral, serve mais para formar usuários.
O uso
pedagógico do computador seria torná-lo um ambiente de aprendizado. Como? Usando essa ferramenta para viabilizar a construção do conhecimento. Mas, para isso, nós ainda precisamos pesquisar como o aluno aprende História, Matemática e outras matérias pelo computador. Folha Dirigida - Existe base científica para isto, atualmente?
Andrea Ramal - Existem muitos pesquisadores trabalhando nisso e há
até alguns softwares desenvolvidos que tentam associar métodos
inovadores, como o construtivismo, com tecnologias digitais. Mas é
preciso pesquisar
mais, porque o cerne da questão é: como as pessoas aprendem hoje? Ainda não sabemos. Inclusive, existem pesquisadores que dizem que estamos fazendo experiências com crianças ao usar computadores. Folha Dirigida - A senhora concorda com estas críticas?
Andrea Ramal - Acredito que o computador, se usado pedagogicamente, ele
só tende a pontencializar as capacidades cognitivas das pessoas.
Por exemplo: nós conhecemos os estágios mentais que Jean
Piaget pesquisou, em que ele associa determinadas capacidades a determinadas
idades. Vi crianças usando computadores e fazendo coisas que, segundo
Piaget, só anos depois elas teriam a capacidade de fazer. Isso significa
que o ambiente do computador favoreceu o desenvolvimento de determinadas
aptidões mentais que, talvez se fossem usados somente o papel ou
outros instrumentos não digitais, ela não teria desenvolvido.
Folha Dirigida - É comum encontrar anúncios de escolas que dizem ter aulas de informática desde a primeira série do ensino fundamental. A senhora acha que, em uma fase tão precoce de aprendizado, ela já pode ter contato com a informática em sala de aula?
Andrea Ramal - Eu considero que ela deve ter contato com a informática.
É a mesma coisa de se questionar se ela deve ter contato com a oralidade,
com a escrita. São as tecnologias intelectuais que ela vai usar
para se comunicar, para aprender, para produzir conhecimento e até
para construir uma visão de mundo. Hoje, somos o que somos também
por causa das máquinas e das tecnologias que nos cercam. Então,
é claro que é muito bom que uma criança tenha contato,
o mais rápido possível, com estas tecnologias. Desde que
se faça um uso orientado e crítico destes recursos.
Folha Dirigida - Quando a senhora comentou sobre a aula do futuro, o que mais me impressionou foi que não seria, necessariamente, uma aula futurista. Pelo visto, este tipo de aula depende muito mais da postura de professores e alunos do que de recursos sofisticados...
Andrea Ramal - Na verdade, o que falta em nossa educação
atual e estamos caminhando para desenvolver no futuro, é uma maior
capacidade de comunicação entre as pessoas. É preciso
melhorar a qualidade das relações. Muitas pessoas criticam
a educação a distância porque se perde o contato físico.
Mas já vi inúmeras aulas presenciais que são mais
distância do que muitos cursos desta modalidade. Isto porque o distanciamento
entre professor e aluno é grande e o nível de afetividade
é zero. Acho que a sala de aula do futuro vai ser um lugar comunicativo,
o espaço da polifonia, da diversidade das vozes, onde todos poderão
se comunicar, se posicionar, e onde, desse diálogo, vai se produzir
conhecimento.
Folha Dirigida - Quais os principais obstáculos para a utilização eficiente da internet e de outros recursos modernos em sala de aula?
Andrea Ramal - São muitos. O primeiro é a inadequação
da formação de professores no Brasil de hoje. Defendo um
novo perfil de professor, que seria o arquiteto cognitivo. Uma pessoa capaz
de traçar mapas mentais sobre o que o aluno vai navegar e desenvolver
no currículo dele. É um dinamizador da inteligência
coletiva, já que essa pessoa irá formar comunidades que aprendem
cooperativamente. A formação que o professor recebe
no Brasil hoje ela não contempla estas competências. Ela ainda
é direcionada para um professor que aprende a dar aulas de uma forma
transmissiva, que pensa no currículo de maneira linear, que não é capacitado a lidar com diversos recursos multimídias e tecnológicos. Outro entrave seria a própria cultura, o imaginário que as pessoas têm sobre a escola. A sociedade ainda pensa em uma boa aula como sendo aquela dada por um professor que fala muito bem aos alunos, uma espécie de showman. Outro entrave é a falta de recursos financeiros nas escolas para investir em mudanças, em capacitação tecnológica e de pessoal. Folha Dirigida - A senhora já falou na mudança do papel do professor. Mas, e com relação ao aluno? O que muda no perfil dele?
Andrea Ramal - O aluno se torna o sujeito da aprendizagem em todos os sentidos.
Ele é o principal interessado no autodesenvolvimento e na sua avaliação.
Ele se torna o centro, o eixo e o horizonte de todo o processo de educação.
Muitos questionam se o professor será substituído por recursos
tecnológicos. Eu discordo e acredito que ele terá o seu papel
elevado neste momento. O que um transmissor de conhecimento fazia a máquina
vai poder fazer. Agora, orientar o processo, pautado em uma dimensão
de valores que atravessa toda a educação; cuidar da relação
afetiva em sala de aula; isso só o verdadeiro educador vai poder
fazer.
Folha Dirigida - Especialistas afirmam que a internet pode ser usada tanto para ter um conhecimento maior sobre o mundo ou mesmo para cometer atos ilegais. A senhora acha que o professor estaria preparado para orientar este uso da internet de forma a indicar o caminho correto?
Andrea Ramal - Esta é uma das funções mais importantes
deste professor hoje, que é esta formação em valores,
esta dimensão ética da educação. A internet
traz uma série de desafios éticos junto com ela. Por exemplo,
o uso da internet para divulgar ideologias que não dignificam o
Homem como neonazistas, discriminatórias, ou até mesmo pornografias.
Então, há uma série de desafios éticos que
o professor tem de trazer para sala de aula e debater porque esse é
o contexto, a vida e o cotidiano que ele tem de deixar entrar na sala de
aula. Então, nada mais enriquecedor do que uma aula em que se possa
debater estas e outras questões. Acontece o mesmo com a televisão,
quando dizemos que ela pode ser prejudicial para as crianças. Isto
é verdade? Sim. E qual é a solução? Que os
pais assistam a tevê com elas e que debatam as opiniões e
personagens.
Folha Dirigida - Seria possível se falar nesse ensino que trabalhe pedagogicamente o computador e a internet sem melhorias socioeconômicas?
Andrea Ramal - Com certeza não. No Brasil, existe um problema ao
se analisar a Educação. Quando se fala na crise da escola
e do ensino, muitos atribuem isto a um problema pedagógico. Os professores
não estão preparados, ou a metodologia adotada não
foi a ideal. Mas eu acredito que o problema da educação no
Brasil é prioritariamente político e social. Enquanto não
existirem políticas sociais que permitam que o aluno chegue à
escola bem alimentado, com suas capacidades cognitivas bem desenvolvidas,
a ponto de ele conseguir aprender, o computador não pode resolver
nada. Se analisarmos em um contexto mais amplo, creio que este seja o maior
desafio socioeconômico do uso das novas tecnologias na escola. O
desafio por trás disto é a democratização da
educação e do
acesso à qualidade de vida de todas as crianças no Brasil. Folha Dirigida - É difícil falar em uso da internet em âmbito educacional sem fazer referência à Educação a Distância. Na sua opinião, esta modalidade de ensino já pode ser considerada uma realidade?
Andrea Ramal - O ensino a distância está aumentando no Brasil
em um contexto empresarial. Há várias instituições
que já investem na capacitação dos funcionários,
utilizando os meios digitais. Fora disso, o ensino a distância que
é a maior realidade no Brasil é o televisivo e o radiofônico.
Em termos de internet, não temos muito avanço nesta área.
Só que esta é uma prática que tende a crescer de forma
avassaladora.
Folha Dirigida - A senhora acredita que ainda existe algum tipo de resistência da parte dos setores mais tradicionais do meio acadêmico?
Andrea Ramal - Ainda há resistências por causa de alguns mitos
que se criaram. Por exemplo: a educação a distância
não é séria, o diploma não é válido.
Outro mito: ensino a distância irá substituir o professor
e só
iremos ter tutores virtuais. Acho que todos estes receios são infundados quando pensamos em uma educação a distância de qualidade. E é possível alcançarmos isto preservando aspectos da educação presencial, como por exemplo, algum contato entre os envolvidos neste processo. Folha Dirigida - Outro mito que existe com relação ao ensino a distância é de que os alunos seriam autodidatas...
Andrea Ramal - É verdade. E para se ter uma idéia de que
a realidade não é essa, os cursos que têm maior evasão
são aqueles baseados na auto- instrução. Neles, o
aluno se matricula, fica isolado, tem acesso a determinadas aulas, tira
dúvidas com o professor e, ao final, tira um certificado. E quais
são os de menor evasão? Aqueles em que se consegue estabelecer
uma certa comunicação entre os participantes. Então,
isso comprova que o laço afetivo que se consegue criar é
fundamental para qualquer processo educacional, inclusive a distância.
Folha Dirigida - Quais os principais desafios para a Educação a Distância se tornar, efetivamente, uma opção viável de formação educacional?
Andrea Ramal - Primeiro obstáculo: muitas pessoas, por falta de
preparação adequada, tendem a repetir o ensino tradicional
na educação a distância. É o que chamo de revolução
conservadora, porque há multimídia, animações,
vários recursos visuais interessantes, mas, no fundo, se aplica
a mesma educação tradicional, sem estratégias didáticas
modernas. Segundo problema: falta de capacitação de determinados
pedagogos para pôr em prática o ensino a distância.
Folha Dirigida - Para a senhora, a Educação a Distância está mais próxima de democratizar ou elitizar ainda mais o acesso ao ensino no país, especialmente em nível superior?
Andrea Ramal - Vivemos hoje um momento de definição, com
três cenários possíveis e, atualmente, há elementos
destes três cenários presentes. O primeiro deles, chamo de
tecnocracia domesticadora. Nesse cenário, a educação
a distância é disseminada; existe uma teórica ou suposta
democratização desse ensino, mas, no fundo, ela só
serve para educar as massas de uma maneira que serve para reproduzir a
sociedade. O Homem se torna cada vez mais escravo da máquina, cada
vez mais sujeito ao consumo. O segundo cenário que vejo é
o meio termo, que chamei de
pay-per-learn, que é uma analogia ao pay-per-view, da televisão. Seria o seguinte: continuarão existindo as escolas mas, ao mesmo tempo, teremos uma educação distribuída para as massas, na internet, com anúncios, merchandising, e uma série de estratégias para formar novos consumidores. E eu estou investindo em um terceiro cenário, que seria o da cibereducação integradora, que seria uma escola que consegue associar tecnologia e humanização; que consegue fazer de alunos e professores, companheiros de estudo; que, em síntese, que ponha a máquina a serviço da humanidade. Então, acho que, neste momento em que estamos, tudo depende de com que intenções esta educação a distância estiver sendo posta em prática. Folha Dirigida - Como deve ser a avaliação, tanto no caso do Ensino a Distância quanto no do uso da internet e outros recursos em sala de aula?
Andrea Ramal - Este aspecto ainda é muito difícil de ser
avaliado. As pessoas ainda não têm uma cultura de autonomia
na própria aprendizagem. Com isso, elas não têm, ainda,
a capacidade de levar a sério uma auto-avaliação.
Qual seria, em termos ideais, o cenário ideal? Seria um aluno tão
motivado a aprender, tão interessado no seu crescimento, que ele
diria "eu quero me avaliar para verificar se já posso avançar
deste para outro conhecimento". |